O tempo verbal do último CD de Romildo Soares não é o Mais Que Imperfeito, título do álbum. Tem lá suas imperfeições, sim, mas o trabalho é bom. Uns cuidados a mais na produção e um investimento maior – nem sempre possível! – na banda daria uma complexidade mais adequada a algumas músicas. Mas o resultado é um verbo conjugado no futuro, de vanguarda. Romildo tem essa vocação de falar para gerações vindouras.
O álbum começa com Pro amor não tem remédio (Erick Firmino / Romildo Soares). Arranjos bem colocados e um suingue guitarrístico mesclado à distorção deram um tempero interessante à composição, das melhores do disco.
Após um intervalo longo e inexplicável (falha?) começa a segunda faixa, O exterminador de sentidos (Lupe Albano / Romildo Soares). Pelo menos já abre com um riff de Ricardo Baya digno de Tommy Iommi. E a canção já reforça o melhor do CD: as composições. Aliás, Lupe Albano (SeuZé) merece melhor reconhecimento nessa área. Nessa música, a parceria foi com Romildo. Mas Baya bem merecia um crédito, pelo riff, pelo solo, pela performance.
Algumas verdades sobre a mentira (Simona Talma / Romildo Soares) ganhou o público no último MPBeco. Muito pelo refrão escroto: “Filha da puta, filha da puta, filha da puta, filha da…” Acho uma composição incacabada, mas simpática. Coube bem no CD.
Para contrabalancear as três primeiras faixas de distorções, uma baladinha com a marca do que classifico nosso melhor compositor. Meu mundo sem você traz a parceria de Babal e Romildo. Não é das melhores inspirações de Babal, mas é uma bela canção. E Baya manteve um conceito nos arranjos de guitarra, também com um solo bem encaixado à música.
Nem todo mundo é de ferro é o estilo de Romildo, é Romildo puro, cagado e cuspido. O amigo Yrahn Barreto parece ter escrito o perfil do poeta pop do Bixiga. Canção simples, direta e ritmada.
Mais uma baladinha com outro grande compositor potiguar, Ivanto Monte, na sexta faixa. Começo, meio e fim, de tão romanticazinha, até fica estranha na interpretação de Romildo. Mas traz uma suavidade bacana ao álbum.
Alma lavada (Karla Dallmann / Romildo Soares) integra o repertório “dazantiga” de Romildo. Há uns bons 5 anos sentei à mesa com ele e meu amigo Rafa, lá em Nazaré (Beco da Lama). Sequer o conhecia e ele me deu um CD com composições suas e interpretadas por artistas locais. Perdi e até hoje procuro. É sensacional. Sempre gostei mais de Romildo na voz de outros. E Alma lavada era das melhores do CD, salvo engano na bela voz de Valéria Oliveira. Tinha outra intepretada por Diana Cravo (onde ela está? Em Portugal?) lindíssima.
Desafio (Geraldo Carvalho / Romildo Soares), de certa forma, desmente o que disse acima. A canção é das principais do setlist nos shows de Geraldinho Carvalho. Mas Romildo dá conta do recado na interpretação da música. Até com certa semelhança. Talvez com mais guitarra e menos MPB. E a canção é muito massa.
Para fechar com chave de ouro, a participação de Valéria Oliveira em Quando me apaixono, parceria dela e Romildo. E Valéria precisava mesmo interpretar essa canção. É daquelas, estilo a balada com Ivando, que ficaria estranha na voz de Romildo. E com Valéria ganha doçura. Voz límpida, precisa, daquelas de quando se apaixona.
É este o +QImperfeito na minha conjugação. Poucos compositores daqui são tão verbais quanto Romildo. Um verbo direto, sem transitivos. Um verbo cru e melódico, temperado de ironias, sarcasmos e alguma revolta, alguma poesia. Ora, Romildo não merece ser perfeito pra ninguém.